Artigo | O Balsemão “Charlatão”

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Qualquer enlace com a realidade brasileira é mera verossimilhança, pois iremos refletir alguns trechos do conto “O Charlatão”, de Miguel Torga (pseudónimo  de Adolfo  Correia  da  Rocha), romancista e poeta português do século XX, a partir da pergunta: quais as estratégias de convencimento usadas pela personagem Balsemão? O autor da obra, nessa direção, estrutura esse tipo de gênero discursivo através da fala do narrador, que descreve as artimanhas de um feirante para vender seus produtos a uma plateia curiosa e carente de soluções milagrosas, segundo Alan Poe (2011), o conto concentra e acende os sentimentos no leitor, disseminando suas emoções conforme o seu ânimo, portanto, a trama dialógica cativa, responsivamente, os apreciadores desse estilo literário.

Charlatão! Sempre a mesmíssima coisa! Sempre a costumada ingratidão
pátria pelos seus valores! O Charlatão, Miguel Torga.

Balsemão é um vendedor de feira, com longa cabeleira e um rato branco de estimação. Logo pela manhã, chega cedo ao cercadinho para montar o seu cenário e organizar seu discurso sedutor, para tanto, arma sua tenda, abre seu grande baú em cima de uma mesa e, em pé, numa cadeira e diante da curiosidade da freguesia a beber-lhe as palavras, arquiteta suas falas, fazendo uso da seguinte tática explorar e manipular, astuciosa e linguisticamente, os sentidos e os sentimentos de medo da morte e de dores emocionais que dominam os indivíduos enfermos e fragilizados pela fome, miséria e epidemias, com um único propósito: vender o seu elixir milagroso.

Segundo o narrador, o feirante, estrategicamente, modula sua voz, tornando-a sugestiva, grave, difundida pelo ampliador, dessa forma, tirava quantas inflexões eram necessárias para encantar homens de todas as terras e feitios, (Torga, 1985), com interesse de ganhar dinheiro e sobreviver às custas do seu “Produto Balsemão”, independentemente dos efeitos nocivos do remédio à saúde humana e das consequências letais à vida dos seus clientes e admiradores. Neste sentido, com base nesses artifícios linguageiros – o “Charlatão” Balsemão – adverte, preventivamente, seu público e asseclas, já no primeiro parágrafo:

— Quando  qualquer  de  V. Ex.as,  às  quatro  horas  da  manhã,  arrancado brutalmente dos braços de Morfeu por uma guinada do dente do siso, se vir desamparado e desgraçado, dirá então com amargura: — Razão Tinha o amigo Balsemão ao microfone! Comprasse eu um tubo daqueles famosos comprimidos, e não estaria agora aqui a sofrer como um cão! — Dores reumáticas ou diáticas, nevralgias, enxaquecas, cólicas e pontadas — tudo este maravilhoso remédio alivia instantaneamente, isto é: num abrir e fechar de olhos. (grifo nosso). (TORGA, 1985, p. 153).

Este trecho: tudo este maravilhoso remédio alivia instantaneamente, isto é: num abrir e fechar de olhos (Torga, 1985) sugere a cura de todos os males do ser humano, o mesmo acontece com aquilo que não foi dito, por exemplo: o fechar e não abrir mais os olhos. A salvação definitiva da enfermidade, porém, por meio da morte. O não-dito também faz coisas, é aquilo que se fala antes, em outro lugar, independentemente (Orlandi, 2005, p. 31). Ele tem método, tem finalidade, tem público, como também tratamento, desde que se desconfie da circulação dos sentidos entre os sujeitos e os subentendidos da linguagem, ou seja, dos ditos e dos não-ditos do discurso. Nesse entremeio discursivo, duvidemos dos argumentos em benefício do tal elixir, bem como das falas políticas e dos conteúdos midiáticos que transitam em nossos espaços sociais dia a dia.

Quanto a eficácia do xarope, devemos desconfiar da pechincha de cinco tostões apenas (Torga, 1985) para um medicamento mágico, das ideias e da performance do feirante, isto é, de um sujeito fora do campo médico e sanitário, portanto, os tais famosos comprimidos são falsos, podendo matar instantaneamente o indivíduo que tomá-los aliviando para sempre o seu sofrimento. Consideremos, ainda, que alguns espectadores do cercadinho sabiam da ineficácia do fármaco, mesmo assim, compravam e usavam, pois aqueles olhos a fuzilar o mal e a curá-lo, aquele rato brando de quando em quando parado e atento às palavras do dono, aquela mão erguida ao alto como um destino, dobravam a vontade do mais pintado. (Torga, 1985), desse modo, tanto os vocábulos quanto os gestos iludiam a maioria dos ouvintes. 

Todavia, conforme o texto de Miguel Torga, os sensatos que vinham ouvi-lo e gritar: Aldrabão!… (Torga, 1985), charlatão…! Eram poucos. Comprovando-se, assim, o efeito do poder sedutor dessas estratégias discursivas do Balsemão “Charlatão”. Logo, o charlatanismos da literatura moderna, parece se adequar aos discursos negacionistas, politiqueiros e mentirosos que circulam na sociedade contemporânea, durante a maior tragédia sanitária do século XXI (a pandemia da Convid-19) da história. Fiquemos, portanto, atentos! Pois o verbo que faz o monge, faz também o embusteiro. Salve-se!

Prof. Me. Fco. Filho | Twitter: @prof_FcoFilho


Referências
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do discurso: princípios e procedimentos. 5. ed. Campinas, SP: Pontes, 2005.
POE, Edgar Allan. A filosofia da composição. Tradução. Lia Viveiros de Castro. 2. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2011.
TORGA, Miguel. Rua. 5ª edição. Coimbra : Edição do Autor, 1985.
Imagem do filme “O Charlatão”

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